Vasconcelo Quadros, JB Online
BRASÍLIA - Em guerra desde que foi deflagrada a Operação Satiagraha, Polícia Federal e Agência Brasileira de Inteligência (Abin) estão de acordo em pelo menos um ponto: o banqueiro Daniel Dantas, controlador do Grupo Opportunity, construiu uma grande rede de intrigas para dividir e constranger o governo e continua conspirando para tornar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alvo de desgaste. Segundo informações e análises que chegam a Lula, a estratégia de Dantas é salvar os negócios afetados pela ação da Polícia Federal e criar ambiente para tentar livrar-se das condenações judiciais que serão anunciadas ainda em novembro.
Dantas espalhou dossiês entre parlamentares do DEM e do PSDB, segundo fontes do congresso, para forçar uma investigação política que leve a familiares do presidente. Seu alvo principal é o filho de Lula, Fábio Inácio Lula da Silva, o Lulinha, sobre o qual, nos bastidores, diz ter coisas que até agora não mostrou. Em janeiro deste ano, diante dos rumores sobre uma suposta parceria informal entre Lulinha e os negócios agropecuários do dono do Opportunity no Sul do Pará, o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Jorge Felix, levou o assunto a Lula. Cauteloso, o general informou o presidente sobre comentários de viagens de Lulinha à região de Marabá. Tranqüilo, Lula teria rechaçado a hipótese com um desafio.
– Quero que investiguem e, se ele tiver culpa, que responda. Ele me garantiu que não deve nada e não tem negócios na região. Se foi ao Pará, deve ter sido por outros motivos – teria dito o presidente, segundo fonte ligada ao GSI.
Lula não gostou das insinuações, mas ficou profundamente irritado com a ousadia do banqueiro em assediar correligionário do PT e Lulinha com a clara finalidade de constranger o governo. A guerra foi motivada pelo controle das teles, iniciada assim que Lula assumiu o governo, em janeiro de 2003. Agora ela está sendo intensificada porque o banqueiro teme perder uma fortuna vinculada ao Opportunity.
Armadilha
O primeiro lance do banqueiro, no final de 2003, foi a contratação de uma empresa de espionagem
internacional, a Kroll Associate, para investigar a vida de autoridades do governo. O feitiço virou-se contra o feiticeiro: os espiões produziram um dossiê falso, publicado pela revista Veja em maio de 2006, listando várias autoridades como titulares de contas secretas em paraísos fiscais. Segundo fontes da Abin, Dantas queria que o governo soubesse do dossiê, mas não imaginava que havia caído numa esparrela da concorrência. Os papéis escaparam de suas mãos e foram parar nas páginas da revista.
O pior se descobriria depois que o falso dossiê produziu repercussão: os investigadores por ele contratados caíram numa armadilha de contra-espionagem e, num mundo dominado pela comunicação via e-mail, aceitaram informações falsas e produziram relatórios fajutos. Neles, a lista de estrelas petistas com contas no exterior era encabeçada pelo próprio presidente Lula, mas incluía ainda os ex-ministros José Dirceu, Marcio Thomaz Bastos, Antonio Palocci e Luiz Gushiken. O relatório relacionava no mesmo grupo o senador Romeu Tuma (PTB-SP) e o então diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda.
PF e Abin suspeitam do agente Nery Kluwe
A rede de intrigas de Dantas se ligaria, dois anos depois, à Operação Satiagraha com o suposto grampo no telefone do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. A espionagem provocou uma crise institucional, mas pode ter motivação prosaica. Na quinta-feira, o general Jorge Felix, durante reunião com funcionários da Abin, em Brasília, disse que já sabia os nomes dos envolvidos no vazamento da informação que derrubou o delegado Paulo Lacerda. Deu a entender que seriam pessoas ligadas à própria Abin. A conspiração tem duas fases: a transcrição do diálogo entre Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) e a informação de que a gravação clandestina teria saído da Abin – o que foi considerado “gravíssimo” pelo presidente do STF, ao ponto de ele anunciar, à época, que chamaria o presidente Lula às falas. A PF não sabe quem escutou, mas listou entre os suspeitos, o presidente da Associação dos Servidores da Abin (Asbin), Nery Kluwe Aguiar Filho.
Kluwe prestou depoimento à PF na semana passada e negou. O delegado William Morad, um dos responsáveis pelo inquérito, disse que havia “uma corrente de pensamento” apontando que Kluwe teria interesse em derrubar o diretor afastado da Abin. O agente desconversou.
– Se a PF está contaminada, fazendo uma polícia sem escrúpulo, preciso uma audiência com o ministro Gilmar Mendes – afirmou Kluwe ao Jornal do Brasil.
Ele quer ouvir a transcrição do discurso de Felix para adotar providências. As investigações da PF não apontaram, até agora, qualquer vínculo entre o suposto grampo e a Abin. Os informes internos da Abin atribuem a Kluwe e a outros servidores que integram a diretoria a informação falsa de que o grampo teve origem na agência. A conclusão está no depoimento que o delegado Paulo Lacerda prestou à Polícia Federal no mesmo inquérito.
– Pode ter sido uma reação à criação da Corregedoria Geral na Abin – disse Lacerda.
Assim que tomou posse, há um ano, o delegado descobriu que havia uma séria de desmandos praticados por funcionários, o mais grave deles envolvendo o próprio Kluwe. Ele é suspeito de ter praticado advocacia administrativa, usando o espaço físico da Abin não só para abrigar a entidade que dirige, mas para atuar na área privada.
Uma sindicância concluiu que houve desvios de função. O resultado foi encaminhado à Advocacia Geral da União (AGU) e o presidente da entidade corre o risco de ser demitido. Lacerda diz no depoimento que os deslizes eram tão freqüentes no órgão, que a Corregedoria encontrou sérias dificuldades para localizar os procedimentos administrativos abertos contra servidores. E que, embora tenha reestruturado a Abin – com a criação de plano de carreira e aumento salarial – a reação da entidade contra a diretoria afastada surgiu assim que a Corregedoria começou a investigar servidores.
Em busca do dossiê perdido de Daniel Dantas
Os policiais que na semana passada devassaram o escritório da Abin, no Rio, e os endereços do delegado Protógenes Queiroz não estavam atrás apenas de indícios sobre os vazamentos ocorridos durante a Operação Satiagraha. Eles queriam também documentos guardados pelo banqueiro Daniel Dantas que possam comprometer autoridades do governo e que o delegado teria apreendido, mas deixado de fora do primeiro relatório enviado à Justiça.
Parte desse material está com a polícia. São 12 discos rígidos de computador e vários cópias de documentos em CDs Room, apreendidos em julho no Opportunity e na casa do banqueiro, no Rio. O problema é que as peças estão protegidas por um sofisticado sistema de criptografia. A Polícia Federal acha que ainda conseguirá decodificar, mas se as dificuldades persistirem, pode recorrer às agências de inteligência americanas (FBI ou CIA) para abri-los. A PF suspeita que eles contenham boa parte do mistério que Dantas armazena desde o início do processo de privatização das operadoras de telefonia, durante o primeiro governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
O material aberto fazia parte de um disco apreendido em 2004, mas só agora decodificado. O que a polícia tem em mãos é suficiente para mandar o banqueiro para a cadeia: indícios de que o Opportunity Found enviou para paraísos fiscais R$ 800 milhões não declarados e que retornaram ao país em forma de investimentos estrangeiros. O mecanismo é conhecido no mercado como Anexo IV, vinculado ao Banco Central para permitir movimentação de recursos estrangeiros, mas usado também para lavar dinheiro de origem ilícita ou não declarada, mantido por brasileiros em paraísos fiscais. Parte desses recursos, segundo relatório que será analisado pelo juiz Fausto De Sactis – e que pode levar a uma condenação do banqueiro por gestão fraudulenta – foi aplicado pelo Opportunity na compra de terras e gado no Sul do Pará pelo braço rural do banqueiro, a Agropecuária Santa Bárbara.
O que eles disseram na CPI
Desde que a Operação Satiagraha e a suposta espionagem contra o presidente do STF, Gilmar Mendes, vieram à tona, a CPI do Grampo se tornou passarela de autoridades. Um deles foi o delegado Paulo Lacerda. Ele disse que a Operação Chacal, em 2004, levantou indícios de que o banqueiro Daniel Dantas realizou grampos clandestinos.
Dantas negou, disse que sofreu retaliação da PF e que soube de uma fonte do órgão que Lacerda havia dito que "ainda colocaria um par de algemas em mim".
O delegado Élzio Vicente da Silva, que trabalhou na Chacal, confirmou à CPI que a Kroll fazia escutas telefônicas e interceptações telemáticas das empresas Brasil Telecom e Telecom Itália.
Foram indiciados por corrupção ativa, formação de quadrilha, calúnia e difamação o banqueiro, a então presidente da Brasil Telecom, Carla Cicco, e outras 18 pessoas ligadas à Kroll, entre elas quatro espiões estrangeiros.
O delegado Daniel Lorenz, chefe de inteligência da PF, disse à CPI que o órgão não foi informado sobre a presença de agentes da Abin na Satiagraha. Disse que o apoio foi informal, mas considerou o procedimento irregular.
O delegado Protógenes Queiroz negou ilegalidade. Disse que agiu amparado na Lei e que outros órgãos públicos também cedem servidores para ajudar em operações.
Lacerda afirmou que faria tudo de novo e que, se fosse o caso, disponibilizaria quantos agentes fossem necessários para investigar Dantas.
(colaborou Idelina Jardim)
Nenhum comentário:
Postar um comentário