Nos bancos “repousam” esqueletos de promissórias da Chrysler e GM, hipotecas e cartões de crédito
31.05.2009 - 18:18
A combinação de mercados financeiros aquecidos em escala global com mercados reais de bens e serviços deprimidos, embora um fiapo menos que em meses passados, repercute expectativas que vão muito além das análises econômicas por mais bem elaboradas que sejam.
Central à compreensão do momento é a sobrevivência do governo de Barack Obama, novinho em folha e comprometido em mudar tudo o que se fizera nos EUA na era Bush. “Sim, nós podemos”, dizia Obama na campanha, equivalendo ao “mudar tudo isso que está aí”, bordão de Lula na eleição de 2002.
A economia descarrilou depois de lançado candidato, forçando-o a encostar sua promessa de choque ético na política para não ser eletrocutado, no nascedouro de seu mandato, pelos choques da insolvência dos bancos e da depressão econômica.
A pressa de Obama não é menor que a da China, o maior detentor de títulos de dívida dos EUA – quase metade de suas reservas de US$ 2 trilhões. O governo chinês cobra o desfecho rápido da crise para não ser cobrado à vara pela população chinesa. A desvalorização a pau do dólar transformará em pó as reservas da China.
Mas o agravamento da recessão nos EUA derreteria, possivelmente, o regime comunista ma non troppo da China, forçando-o à regressão, já que quase tudo o que o país produz é para exportação, sem que haja substituto tão voraz no mundo ao consumidor americano. Nem o próprio consumidor chinês, para o qual se direcionam os estímulos fiscais e monetários, mas sem chance de sucesso no curto prazo.
Tempo é o que os governos em todo mundo precisam e ele será maior quanto mais célere, não mais eficiente, for o governo Obama para estancar a sangria dos bancos e atacar a metástase dos tumores da América Corporativa, sobretudo da General Motors.
A GM irá à bancarrota nas próximas horas, mas organizada, com concordata consentida pelos credores, funcionários e o governo, que vai por dinheiro grosso, converter seus créditos em ações e assumir o controle temporário do que resultar. É a mesma lógica da salvação da banca. Mas ela teve força para evitar a estatização.
Ao contrário de Detroit, nunca viveu às turras com Washington e soube neutralizar na equipe de Obama o grupo que quis radicalizar para cima de Wall Street, liderado por Rahm Emanuel, seu chefe de gabinete e lua preta, além de cacique do Partido Democrata.
O “cara” na sombra
Emanuel é o “desenvolvimentista” do governo, o “cara” na sombra. É autor do que o principal economista do escrete de Obama, o ex-secretário do Tesouro Lawrence Summers, chama de “Doutrina Rahm”, isto é, muita heterodoxia para tirar a banca da lama e depois pau no crescimento econômico para o Tesouro pagar as dívidas.
Melhor, torná-la palatável administrando sua relação sobre o PIB (como se faz no Brasil), defender a dominância do dólar e resgatar para os EUA o senso de império por meio de tecnologias de ruptura.
Gringos sem know-how
Este roteiro, ou plano, foi exposto em extensa análise de David Leonhardt, do New York Times, publicada em fevereiro. O pano de fundo das contingências de Obama, mais políticas que técnicas, não está bem compreendido pela maioria dos economistas fita-azul dos EUA, que continuam céticos e reticentes sobre a recuperação.
O que lhes falta é o know-how de situações de dívidas impagáveis, como as do Brasil após o ciclo de crescimento acelerado do período militar, nos anos 80. País à época sem importância econômica, até se permitiu entrar em moratória - impensável aos EUA. Mas não deu certo. No fim, o que funcionou mesmo foi o pragmatismo contábil.
“Esqueleto” americano’
O Estado assumiu dívidas privadas, juntou-as com as das empresas estatais e pôs tudo na conta do Tesouro. Alguma coisa ficou fora para não assustar os tomadores dos papéis emitidos para financiá-las, formando os “esqueletos”: dívidas reconhecidas e não lançadas no orçamento fiscal, como o rombo do antigo BNH, Banco Nacional da Habitação. Até hoje todos os anos um pedaço desse passivo, o tal FCVS, é baixado ao orçamento. O saldo é da ordem de R$ 80 bilhões.
Na banca dos EUA “repousam” esqueletos de hipotecas, cartões de crédito, promissórias da Chrysler e GM. A contabilidade foi mudada para que parassem de sangrar a banca. Tal ato e os bilhões postos na economia estão tirando os mercados financeiros do torpor.
Obama volta a respirar. Queriam uma resposta à crise. E ele está dando. Não a melhor, só a possível por ora: a que lhe permite governar.
Político é tudo igual
Crises econômicas dificilmente se resolvem com soluções técnicas na aparência, mas que, na prática, refletem interesses de grupos. As pressões da banca nos EUA dominaram a cena até agora.
Ajudou-a a compreensão de que seria inatingível e custoso solver a montanha de dívidas de modo transparente. Obama escolheu o meio mais rápido – consertar a banca e as montadoras falidas, sem fazer perguntas.
Chave para ele é assegurar o máximo de empregos até 2010, quando haverá eleições parlamentares, para manter a maioria Democrata no Congresso e ambicionar a reeleição. O resto vem depois, respeitado o limite da confiança no dólar. Político é igual no mundo todo.
Extraído de: http://cidadebiz.oi.com.br/paginas/48001_49000/48491-1.html
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