quinta-feira, 4 de junho de 2009

Especulação exacerba mais a força do real que a entrada maciça de dólares e os juros altos

Foco sobre a Selic é conveniente ao especulador porque desvia a atenção sobre os eventos principais

03.06.2009 - 18:23

Antonio Machado

A busca incessante de operadores de câmbio por patamares cada vez maiores para o real responde a vários fatores. O mais visível é a depreciação do dólar em relação às principais moedas conversíveis, como o euro, o iene e a libra. Não menos importante é a percepção de que a economia brasileira está mais arrumada que muitas outras.

Estas são as explicações de manual, verdadeiras mas insuficientes para justificar a brutal desvalorização do dólar vis-à-vis o real, assim como, com sinal contrário, também não foram convincentes no movimento oposto a partir de setembro.

O dólar, no Brasil, escalou de R$ 1,56 em agosto até R$ 2,40 no início de março. E desde então só tem feito recuar. Furou na volta o patamar de R$ 2,00 na semana passada e já flerta com R$ 1,90. Ontem, estava a R$ 1,92.

Onde vai parar o atual ciclo de valorização do real? Economistas preocupados com o colapso das exportações devido ao real forte já defendem em artigos apaixonados intervenções do Banco Central e da Fazenda.

Num caso, cortes radicais da Selic, hoje a 10,25% ao ano. No outro, a volta da tributação do IOF, o Imposto sobre Operações Financeiras, nos ingressos de capitais dirigidos a ações na bolsa ou a títulos de dívida. Ou retenções de parte do hot money.

O diretor da Escola de Economia da FGV de São Paulo, Yoshiaki Nakano, sustenta que com o regime de câmbio flutuante nem o BC nem o Tesouro poderão evitar a apreciação sem redução da taxa de juros da política monetária, isto é, a Selic. E mais a compra maciça dos dólares disponíveis, como já faz o BC.

Idéias não faltam contra o que se vai tornando uma emergência: a valorização do real - veneno para as exportações e analgésico para pressões inflacionárias.

O problema dessas análises e propostas é que elas desconsideram a causa concreta do que faz a desvalorização estrutural do dólar em escala global ser turbinada no Brasil.

Causas estruturais não são o fator principal, mas os negócios no mercado futuro de câmbio na BM&F, Bolsa Mercantil e de Futuros, e o que os promovem: operações de swap ou troca de contratos pelo BC.

Elas permitem ao aplicador faturar a valorização do real e a taxa mensal da Selic. Só em maio o ganho foi da ordem de 10%. Swaps exacerbam as febres cambiais.

Exagero nas duas mãos

À primeira vista, quando eclodiu a grande crise bancária nos EUA, a forte desvalorização do real que se seguiu parecia responder à clássica fuga de capitais dos países emergentes de volta ao dólar.

Isso aconteceu, mas, como revelam os fluxos de entrada e saída de capitais monitorados pelo Banco Central, não com intensidade para derreter o real, como sugeria a maxidesvalorização de quase 50%.

Agora ocorre o mesmo na mão oposta, sugerindo que o real virou o ralo para o qual escorrem parcelas crescentes do capital ocioso do mundo desconfortável com o dólar e com os juros acerca de zero das aplicações monetárias em títulos do Tesouro dos EUA. Não há isso.

Nem muito nem pouco

O raciocínio estaria correto para os dois momentos cambiais, o de queda e agora o de alta, se ao país, no caso anterior, faltassem dólares a irrigar a economia, e no atual, uma inundação da moeda americana. Não é bem assim, como adverte o diretor da corretora NGO, Sidnei Moura Nehme, desde o princípio das abruptas oscilações do real.

Com reservas de US$ 205 bilhões, alargadas por uma linha de swap em reais com o Federal Reserve de US$ 30 bilhões, nunca houve escassez de divisas no país. O BC as ofereceu prontamente no momento de corte dos créditos externos por meio de leilões.

BC é enredado na BM&F

Hoje, na mão contrária, a inundação de dólares vira um riachinho, quando se subtraem dos ingressos financeiros, US$ 22,379 bilhões em maio até o dia 22, dos quais US$ 2,4 bilhões para a Bovespa e US$ 800 milhões para renda fixa, as saídas de US$ 18,746 bilhões, com saldo de US$ 1,6 bilhão.

A tal superávit se adiciona o oriundo da balança comercial, US$ 1,454 bilhão, e se abatem as compras do BC, US$ 2,408 bilhões. O que sobra no mercado, US$ 679 milhões, é muito pouco, diz Nehme, para influenciar oscilações tão pesadas no mercado cambial. De onde elas vêm? Da especulação na BM&F.

Conselho de Nehme: “Se o BC só atuar no mercado à vista de câmbio para aumentar as reservas, a excessiva apreciação do real não será fomentada”. Toda vez que o BC tentou influenciar os derivativos na BM&F colheu resultado oposto ao que queria. Para ele, sem os swaps do BC o provável é o dólar voltar a R$ 2,00/R$ 2,05 já este mês.

Frango de economistas

As análises dos economistas sobre o dólar, como das operações com papéis do Tesouro, ambas influenciadas pela Selic, acabam falhando no diagnóstico e, assim, na prescrição, porque são tratadas apenas como eventos econômicos.

A influência dos mercados é minimizada na maioria dos estudos, a não ser como consequência de distorções de política econômica. Nos EUA, economistas badalados acordaram para a farra dos mercados quando a crise já ia longe. Nenhum admitiu o frango, à exceção de Dani Rodrik, professor de Harvard.

Não é por menos que o foco sobre a Selic, no Brasil, acaba sendo conveniente ao especulador: desvia as atenções sobre os eventos principais.

Extraído de: http://cidadebiz.oi.com.br/paginas/48001_49000/48540-1.html

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